Preparar um herdeiro pode garantir o sucesso das propriedades

16/09/2015 12:52

Assista a reportagem completa que foi ao ar no Globo Rural clicando aqui.

Você já sabe quem vai cuidar da sua propriedade no futuro? A sucessão é um assunto que tem frequentado muita roda de discussão nas famílias. Sem sucessor, o campo produz menos e não importa o tamanho das terras.

Santa Catarina é um dos estados brasileiros onde a produção da pequena propriedade é bastante forte e passar as terras de pai para filho, de uma geração para outra, como se diz, sempre foi algo muito presente entre as famílias dali. Só que isso, ao longo do tempo, vem sofrendo modificações e a continuidade do que se tem hoje já não é tão automática assim.

No comando do trator encontramos a Cristiani Schneider Christlid, herdeira de uma propriedade de 70 hectares no município de Guaraciaba. Filha única, ela aprendeu a pilotar um trator por necessidade. “Meu pai só tinha eu para contar para fazer o serviço. Foi meio que por obrigação mesmo”, diz. O marido de Cristiani, Moacir Christlid, que nunca tinha morado no campo, topou encarar a rotina das atividades rurais.

A história do casal representa o mais novo comportamento no meio rural, de acordo com uma pesquisa da Epagri, a Empresa de Extensão Rural de Santa Catarina. Antes de se aposentar da instituição, o agrônomo Milton Luiz Silvestro mapeou quase 600 sítios do oeste do estado, para entender a sucessão no campo. Lá no passado, ela tinha um padrão definido, que normalmente era o filho mais novo que ficava com a propriedade. “O filho mais velho era o que casava primeiro e ia se estabelecendo na agricultura. O filho imediatamente seguinte casava também e normalmente acabava ficando o filho mais novo com a responsabilidade de cuidar dos pais. Inclusive, os pais diziam que o filho mais novo era a bengala de sustentação dos pais”, descreve Milton.

Depois,  muitos jovens começaram a dar importância para o estudo e se sentiram atraídos pela cidade e a mulher passou a ser considerada uma opção para assumir a propriedade. Justamente o que aconteceu com a Cristiani.

Nicolau Schneider, pai da Cristiani, aprova a família ajudando nos negócios. “Todos dão opinião e a gente falando, conversando junto, fica melhor”, acredita.

A conversa parece mesmo o ingrediente indispensável na receita da sucessão familiar e, quanto mais cedo essa prosa começar, melhor. Pelo menos é o que acredita o professor Jair Dilli, coordenador da Casa Familiar Rural de Guaraciaba. A escola, que forma filhos de agricultores, introduziu a sucessão familiar entre os temas discutidos em sala de aula. “Esse assunto é tão importante quanto qualquer outro assunto técnico que nós abordamos durante a formação desses jovens. Que esse jovem esteja preparado e não ser um sucessor feito de última hora”, analisa.

Valmor Schwav foi feito um sucessor de última hora. Assumiu a propriedade depois que o pai morreu vítima da gripe suína, aos 48 anos de idade. Na época, Valmor tentava fazer carreira no exército e teve que abandonar a farda para encarar o trabalho com as vacas leiteiras. Há três anos, ele ganhou uma companheira ponta firme no amor e no trabalho. Amábile Sevald também é filha de criadores de gado de leite e, em nome do casamento, abriu mão de tocar a propriedade dos pais.

Essa  matemática de quem fica e quem sai da zona rural é uma dinâmica que, cada vez mais, tem deixado as famílias com o cobertor curto. É que está faltando sucessor no campo. Só no oeste de Santa Catarina, 75 mil jovens rurais foram para a cidade nos últimos 25 anos e isso já ameaça a continuidade de pelo menos 30 mil pequenas propriedades da região. A situação se espalha por todos os estados do sul do Brasil e tem preocupado a FAO, o braço da Onu para a agricultura e alimentação. “Sem esses agricultores familiares, dificilmente nós conseguiremos erradicar a fome. E isso é uma preocupação maior aqui na região sul do Brasil, na medida em que hoje nós temos aproximadamente 900 mil propriedades da agricultura familiar e o número de jovens de 15 a 24 anos não chega a esse número. Isso coloca em risco, lá pelos anos 2030, 2050, a produção de alimentos nessa região e, consequentemente, o consumo por parte da sua população urbana”, detalha o oficial da FAO para os Estados do Sul do Brasil, Carlos Biasi.