Varejo recua em abril/2025 após três meses de alta
Rafael Nicolo Serra Ferreira*
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) acompanha o comportamento conjuntural do comércio varejista no Brasil ao investigar a receita bruta de revenda em empresas juridicamente constituídas, com 20 ou mais pessoas ocupadas e cuja atividade principal é o varejo. A pesquisa, realizada mensalmente desde 1995, cobre as 27 Unidades da Federação e produz indicadores de volume e receita nominal de vendas, com séries atualizadas periodicamente — sendo a atual baseada no ano de 2022. A PMC também contempla o comércio varejista ampliado, incluindo os segmentos de veículos e material de construção.
A pesquisa publicada em junho de 2025 apresenta os dados relativos ao desempenho do comércio varejista em abril, quarto mês do ano. Após três meses consecutivos de crescimento, o volume de vendas no varejo nacional registrou retração de -0,4% em relação a março, enquanto o varejo ampliado apresentou queda mais expressiva, de -1,9%. Segundo o IBGE, esse resultado interrompe uma trajetória de alta sustentada, em nível nacional, por segmentos como supermercados e artigos de uso pessoal e doméstico, que vinham contribuindo positivamente para o desempenho agregado do setor.
Assim, o desempenho do comércio em abril de 2025 pode ser interpretado como um movimento de acomodação dentro de um ciclo mais amplo, no qual o setor ainda opera em patamar elevado, mas com desafios crescentes à sustentação do consumo. Em Santa Catarina, o comportamento semelhante ao nacional reforça a sensibilidade da atividade varejista local às condições macroeconômicas, sobretudo em setores dependentes do crédito e da renda das famílias.
Varejo do país registra retração em abril/25
O Gráfico 1 ilustra a trajetória do índice de volume de vendas do comércio varejista ampliado com ajuste sazonal, no período de janeiro de 2020 a abril de 2025. A série evidencia os distintos ciclos econômicos enfrentados pelo Brasil nesse intervalo, com momentos alternados de crescimento, recuperação, desaceleração e posterior expansão.
Observa-se, logo no início de 2020, o impacto imediato da pandemia de COVID-19, com forte recuo nas vendas motivado pelas medidas de isolamento social. Essa queda, no entanto, foi seguida por uma recuperação expressiva ao longo do segundo semestre. Em 2021, o comércio varejista passou a registrar maior estabilidade, apesar de oscilações pontuais decorrentes da segunda onda da pandemia, que perdeu força no segundo semestre. Com a ampliação da vacinação em 2022, houve relaxamento das restrições sanitárias e retorno gradual das atividades comerciais. Durante o ano de 2023, o setor exibiu desempenho mais consistente, embora a partir de julho o ritmo de crescimento tenha se tornado mais comedido, encerrando o ano com o índice acima do nível pré-crise sanitária. Já em 2024 o avanço começou a perder fôlego, mesmo mantendo-se certa estabilidade, com o primeiro semestre indicando alguma resiliência da demanda. No início de 2025, por sua vez, destaca-se uma aceleração significativa nas vendas, culminando em um novo pico histórico do indicador no mês de março. Entretanto, em abril, observa-se uma leve inflexão negativa, indicando possível acomodação após o forte crescimento observado nos meses anteriores.
Gráfico 1 – Índice de volume de vendas do comércio varejista ampliado com ajuste sazonal, Brasil, 2020-abr 2025 (jan 2020 = 100)
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
A Tabela 1 apresenta a variação do volume de vendas do comércio varejista ampliado com base nos quatro índices de variação mensurados pela Pesquisa Mensal do Comércio (PMC). Em comparação com o mês anterior, o registro foi de -1,9% resultado que sinaliza uma retração da atividade comercial, podendo estar refletindo um movimento de acomodação após sucessivos crescimentos, como destacado pelo IBGE.
Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, registrou-se 0,8%, sendo 2 pontos percentuais acima do resultado de março. No acumulado do ano, o comércio varejista ampliado nacional registrou 1%, sendo 0,1 pontos percentuais abaixo do resultado de março, possivelmente sustentado pelo bom desempenho observado nos meses iniciais do ano. Nos últimos 12 meses, a variação foi de 2,7%, ligeiramente inferior aos 3% registrados no mês anterior (março), em consequência da leve desaceleração do setor no mês de abril.
Tabela 1 – Variação volume de vendas do comércio varejista ampliado em diversos períodos, Brasil
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
(1) Base: mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal; (2) Base: mesmo mês no ano anterior; (3)
Base: mesmo período no ano anterior; (4) Base: período anterior de 12 meses.
A Tabela 2 apresenta a variação do volume de vendas do comércio varejista ampliado por atividade no Brasil nos três meses encerrados em abril de 2025. A análise revela um cenário setorial heterogêneo, com alguns segmentos mantendo desempenho positivo, enquanto outros mostram sinais de desaceleração ou retração.
O setor de Combustíveis e lubrificantes passou por mudanças expressivas no trimestre. Após crescer em fevereiro, sofreu desaceleração em março e queda mais acentuada em abril (-2,8%). Ainda assim, o desempenho frente a abril de 2024 foi positivo (5,7%), e o acumulado do ano apresentou alta de (9,2%), apesar do arrefecimento.
Já o segmento de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo apresentou leve retração em abril (-0,2%), mas compensou com expressivo crescimento interanual (14,2%) e avanço contínuo no acumulado do ano (8,8%).
Tecidos, vestuário e calçados mantiveram trajetória sólida e estável, com variações positivas nas três comparações: (1,8%) no mês, (11,2%) na interanual e (7,6%) no acumulado. O setor segue demonstrando resiliência ao longo de 2025.
Após desempenho negativo em março, Móveis e eletrodomésticos voltaram a crescer levemente em abril (0,3%). Os dados interanuais e acumulados do ano também indicaram recuperação, com variações positivas de (2,5%) e (5%), respectivamente.
Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos seguiram em ritmo positivo. Apesar da alta modesta de (0,2%) em abril, os demais indicadores permaneceram fortes: (6,5%) no comparativo anual e (8,1%) no acumulado.
O setor de Livros, jornais, revistas e papelaria mostrou desaceleração frente aos meses anteriores, com variação mensal de (1,5%). Ainda assim, os dados anuais e acumulados indicam recuperação e estabilidade: (2,7%) e (2,1%), respectivamente.
Diferentemente de outros segmentos, Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação apresentaram estagnação em abril (0,0%) e quedas nas demais comparações: (-2,5%) na interanual e (-1,2%) no acumulado do ano.
Outros artigos de uso pessoal e doméstico continuaram com desempenho positivo: (1,6%) na comparação mensal, (16,5%) na anual e (6,9%) no acumulado. O setor tem sido impulsionado por demanda aquecida e base de comparação baixa.
No caso de Veículos, motocicletas, partes e peças, os dados indicam desaceleração: retração mensal de (-2,4%), queda interanual de (-4,5%), ainda que o acumulado no ano tenha se mantido no campo positivo (4,3%).
Por fim, Material de construção registrou leve crescimento em abril (0,2%). Apesar da retração interanual (-0,1%), o acumulado de 2025 ainda é positivo (5,7%), embora com sinais de perda de fôlego.
Tabela 2 – Índice e variação da receita nominal e do volume de vendas no comércio varejista ampliado, por atividades, Brasil (2022 = 100)
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
O Gráfico 2 ilustra a variação acumulada no ano das atividades do comércio varejista ampliado até abril/25. Das 14 atividades analisadas, 10 registraram variação positiva e 4 apresentaram resultados negativos. As maiores variações positivas foram observadas nas atividades de Eletrodomésticos (6,4%), Tecidos, vestuário e calçados (4,9%) e Móveis e eletrodomésticos (4,4%).
Por outro lado, as atividades com variações negativas foram: Atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo (-5,8%); o setor Livros, jornais, revistas e papelaria (-3,9%) e o setor de móveis com variação negativa de -2,4.
Gráfico 2 – Variação do volume de vendas por segmento do comércio varejista ampliado, Brasil, acumulado no ano (abril)
Fonte:IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
Varejo de SC recua em abril, mas mantém desempenho acima da média nacional
No cenário estadual, Santa Catarina também apresentou desempenho negativo, com retração no volume de vendas do varejo restrito de -0,6% e do varejo ampliado de – 1,8% frente ao mês anterior. Ainda assim, o estado mantém patamar elevado em relação ao mesmo período de 2024, sustentado, principalmente, pelo bom desempenho acumulado no início do ano.
O Gráfico 3 apresenta a evolução do índice de volume de vendas do comércio varejista ampliado em Santa Catarina entre janeiro de 2020 e abril de 2025. É possível identificar uma queda acentuada no início de 2020, em decorrência da pandemia de Covid-19, seguida por uma recuperação expressiva ao longo daquele ano. A partir de 2021, o indicador passou a flutuar em um nível relativamente constante. Em 2023, tem início uma trajetória mais robusta de crescimento. Em 2024, apesar de alguns sinais de desaceleração, o setor comercial estadual manteve-se em expansão, renovando sucessivas máximas históricas. Já em 2025, esse movimento de alta persiste, alcançando o maior patamar do período no primeiro trimestre, embora com uma leve inflexão negativa observada no mês de abril.
Gráfico 3 – Índice de volume de vendas do comércio varejista ampliado, Santa Catarina, 2020-abr 2025 (jan/2020=100)
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
A Tabela 3, ao apresentar os dados do comércio varejista ampliado em Santa Catarina, contempla também os resultados referentes ao mês de abril de 2025, sem, no entanto, restringir-se a uma análise exclusivamente pontual. Com base nos quatro indicadores calculados pela Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) – variação em relação ao mês anterior, variação interanual, acumulado no ano e variação em 12 meses – é possível elaborar um panorama abrangente da evolução do setor, com informações relevantes tanto conjunturais quanto estruturais.
Na comparação com o mês imediatamente anterior, o comércio varejista ampliado em Santa Catarina registrou retração de -1,8% em abril de 2025,
interrompendo a sequência de três meses consecutivos de crescimento. Em relação ao mesmo mês de 2024, a variação foi de 4,3%, indicando uma desaceleração frente à tendência de recuperação observada no primeiro trimestre. No acumulado do ano, o avanço foi de 5,9%, o menor resultado desde maio de 2024, sinalizando uma leve perda de fôlego. Já no acumulado dos últimos doze meses, a taxa ficou em 7,2%, levemente abaixo da registrada em março.
Tabela 3 – Variação do volume de vendas do comércio varejista ampliado em diversos períodos, Santa Catarina
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
(1) Base: mês imediatamente anterior, com ajuste sazonal; (2) Base: mesmo mês no ano anterior; (3)
Base: mesmo período no ano anterior; (4) Base: período anterior de 12 meses.
A Tabela 4 exibe a variação do volume de vendas no comércio varejista ampliado em Santa Catarina, segmentada por atividade, nos três últimos meses até abril de 2025. Observa-se que, na comparação com fevereiro e março, o mês de abril apresentou melhora no desempenho da maioria dos segmentos.
O segmento de Combustíveis e lubrificantes inverteu sua tendência em relação à fevereiro, voltando a crescer em março (5,4%) e mantendo estabilidade no acumulado do ano (4,8%). Já Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo registraram forte expansão em abril (15%) e também ganharam fôlego no acumulado (8,1%).
Tecidos, vestuário e calçados continuaram em trajetória positiva, com alta tanto na comparação interanual (10,3%) quanto no acumulado do ano (10%). Móveis e eletrodomésticos, por sua vez, perderam ritmo, com crescimento mais modesto (3,4%) frente ao mesmo mês do ano anterior e 6,1% no acumulado.
O ramo de artigos farmacêuticos e cosméticos seguiu com desempenho estável, atingindo 5,7% nas duas comparações. Já Livros, jornais, revistas e papelaria surpreenderam com forte avanço interanual (14,2%), apesar de ainda acumularem queda no ano (-0,4%).
Tabela 4 – Índice e variação da receita nominal e do volume de vendas no comércio varejista ampliado, por atividades, Santa Catarina (2022 = 100)
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC
Entre os destaques negativos, estão os equipamentos de escritório, informática e comunicação, que apresentaram recuos significativos: -15% frente ao mesmo mês de 2024 e -11,6% no acumulado.
Outros artigos de uso pessoal e doméstico voltaram a crescer fortemente (24,4%), e seu desempenho anual também é expressivo (18,9%). Em contrapartida, o setor de veículos e peças registrou retração interanual (-5,1%) e perda de força no acumulado (5,1%). Por fim, o setor de material de construção desacelerou na comparação interanual (1,5%), mas segue com crescimento estável ao longo do ano (7,6%).
O Gráfico 4 apresenta a variação acumulada no ano do volume de vendas do comércio varejista ampliado, com base na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) de abril. Dos catorze grupos analisados, onze registraram resultados positivos, enquanto três apresentaram quedas.
Gráfico 4 – Variação do volume de vendas por segmento do comércio varejista ampliado, Santa Catarina, acumulado no ano (abril)
Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal do Comércio. Elaboração: NECAT/UFSC.
Dentre os destaques positivos, aparecem os segmentos de Outros artigos de uso pessoal e doméstico manteve a liderança, com crescimento de (18,9%), alta de 1,7 pontos percentuais em relação a março, possivelmente influenciado por estratégias promocionais praticadas pelo setor e de Tecidos, vestuário e calçados também registraram desempenho expressivo, com variação de (10%). Já o setor de Hipermercados e supermercados avançou (8,4%), subindo da sétima posição no mês anterior e ganhando 1,9 pontos percentuais.
Em contraste, alguns segmentos apresentaram resultados negativos. Equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação recuaram (11,6%), enquanto o setor Atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo teve variação de (-1,1%). Já Livros, jornais, revistas e papelaria apresentou leve queda de (0,4%), embora com melhora de 3,1 pontos percentuais frente a março.
Considerações finais
O desempenho do comércio varejista em abril de 2025 marca uma inflexão após três meses de crescimento, refletindo um processo de acomodação diante de um cenário ainda instável. Apesar da retração de -0,4% no varejo restrito e -1,9% no ampliado, os indicadores se mantiveram em patamares historicamente elevados, o que evidencia a resiliência do setor mesmo diante das restrições de crédito devido às elevadas taxa de juros e da inflação ainda persistente.
Em Santa Catarina, a retração de -1,8% no varejo ampliado também interrompeu a trajetória positiva, mas o estado continuou apresentando resultados superiores à média nacional nas demais comparações. A composição setorial mostra importante heterogeneidade: segmentos como supermercados, artigos de uso pessoal e tecidos seguem com crescimento expressivo, enquanto bens duráveis e itens importados, como
informática, sentem os efeitos de juros elevados e valorização cambial.
A leitura das informações divulgadas pelo IBGE reforça que o ritmo de recuperação do comércio dependerá, nos próximos meses da massa de rendimentos das famílias e do custo do crédito, especialmente em função do patamar elevado das taxas de juros. Diante disso, setores com maior sensibilidade ao financiamento podem manter desempenho moderado, ao passo que segmentos de consumo cotidiano, apoiados na estabilidade do emprego, devem sustentar parte da demanda.
Combinando diversificação produtiva e dinamismo regional, Santa Catarina tende a seguir com desempenho acima da média nacional, ainda que em ritmo menos acelerado. O acompanhamento constante das condições macroeconômicas será essencial para avaliar a capacidade do varejo de manter sua trajetória de crescimento no médio prazo.
* Graduando em Ciências Econômicas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense (NECAT/UFSC). Email: rafaelnserra@gmail.com
Referências Bibliográficas
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Mensal do Comércio. Rio de Janeiro (RJ): IBGE, abril de 2025.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas Econômicas. Disponível em https://file:///C:/Users/usuario/Downloads/pmc_2025_abr%20(4).pdf
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estatísticas Econômicas. Disponível em https://
file:///C:/Users/usuario/Downloads/noticia%20ibge%20comercio%20(4).pdf
FGV – Fundação Getúlio Vargas. Boletim Macro. Disponível em: <https://https://portalibre.fgv.br/noticias/humor-externo-melhora-mas-fundamentos-domesticos-preocupam.







