Qual a dimensão do desemprego gerado pela crise da Covid-19 em Santa Catarina?

21/12/2020 19:20

Por: Vicente Loeblein Heinen[1] e Lauro Mattei[2]

Ao contrário do que ocorreu em outros momentos de crise, a queda da produção associada à pandemia da Covid-19 foi transmitida de forma quase imediata para o nível de emprego em todas as regiões do país. Com o rompimento abrupto das atividades de diversas cadeias produtivas e o início das medidas de isolamento social em meados de março de 2020, o mercado de trabalho brasileiro foi fortemente atingido, deteriorando-se em ritmo sem precedentes na história recente do país. A dinâmica desse processo, bem como seus reflexos em Santa Catarina, foi examinada em artigo recentemente publicado na Revista Necat. Este texto visa analisar o comportamento da força de trabalho no Brasil e no estado de Santa Catarina a partir dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, relativos ao 3º trimestre de 2020.

A situação do mercado de trabalho catarinense diante da calamidade nacional

Em comparação com a média nacional, a queda nas ocupações em Santa Catarina foi relativamente mais severa no 1º trimestre de 2020 e menos intensa no 2º trimestre, a despeito do agravamento do cenário em ambos os períodos. Com isso, no acumulado do 1º semestre o Brasil já havia perdido 11,1% e Santa Catarina 4,5% de todos os seus postos de trabalho (Gráfico 1).
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Produção Industrial de Santa Catarina cresceu em outubro, mas produção acumulada do ano ainda é negativa

18/12/2020 19:48

Por: Matheus Rosa[1] e Lauro Mattei[2]

Os dados divulgados pela Pesquisa Industrial Mensal do IBGE (PIM-PF) do mês de outubro revelaram uma possível estagnação da produção industrial do país, uma vez que sete das quinze unidades da federação pesquisadas apresentaram resultados negativos e/ou estagnados. Com isso, verifica-se que, diferentemente dos meses imediatamente posteriores ao período agudo da crise da Covid-19 (março e abril), o mês de outubro registrou baixas taxas de crescimento nas diversas comparações mensais, mantendo-se, desta forma, o cenário negativo para a produção acumulada do ano, quando comparada ao igual período do ano anterior.

No âmbito nacional, como podemos observar no Quadro 1, a produção física teve uma expansão de apenas 1,1% em relação ao mês imediatamente anterior, na série com ajuste sazonal. Com isso, o mês de outubro registrou a menor taxa de expansão da produção desde o início da recuperação (9,6% em junho, 8,6% em julho, 3,4% em agosto, 2,8% em setembro e 1,1% em outubro).

Quadro 1: Atividade Industrial no Brasil, 2020

Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.<

Dentre as 14 Unidades da Federação pesquisadas no mês de outubro, apenas quatro delas, PR (3,4%), PE (2,9%), SC (2,8%) e MT (1,1%), apresentaram taxas superiores à média nacional, que foi de 1,1%. Além dessas, mais três unidades apresentaram resultados positivos: CE (0,5%), SP (0,5%) e MG (0,4%). Todas as demais apresentaram resultados negativos ou estagnados, destacando-se os seguintes percentuais: RJ (-3,9%), GO (-3,2%), ES (-1,8%), PA (-1,8%), AM (-1,1%) e BA (-0,1%). Apenas no RS a produção ficou estagnada (0,0%) em relação ao mês anterior.

Em relação ao desempenho acumulado do ano (janeiro-outubro), o cenário geral do país ainda é negativo da ordem de -6,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Dentre as 14 unidades da federação pesquisadas apenas quatro delas apresentaram resultados positivos: PE (2,4%), RJ (1,4%), GO (0,7%) e PA (0,1%). Todas as demais detêm um saldo negativo, destacando-se o ES (-17%), CE (-9,8%), RS (-9%), AM (-8,9%), SP (-8,2%), SC (-7,8%), BA (-6,9%) PR (-6,0%), MG (-5,8%) e MT (-4,6%). Tais retrações acumuladas contribuíram significativamente para a geração de um cenário nacional negativo no mesmo período.

Para o conjunto da produção industrial do país, a taxa de apenas 1,1% em relação ao mês anterior, mais do que representar uma mera recomposição de bases comparativas, revela diversos fatores estruturais, com destaque para o arrefecimento da recuperação que estava em curso; para uma queda importante da taxa de crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior; além de descompassos entre os diversos setores, em particular dos bens de consumo duráveis e não duráveis. Tais fatores, sem dúvida, estão indicando uma clara perda generalizada de dinamismo e de ritmo da produção industrial que, em última instância, reflete a dimensão da crise econômica em curso no país.

O desempenho da Indústria Catarinense em outubro de 2020

O Gráfico 1, que ilustra o desempenho oscilante em curso na indústria catarinense há pelo menos dois anos, evidencia a perda de ritmo para a retomada da produção industrial. Assim como no cenário nacional, as altas expressivas após os impactos iniciais da pandemia serviram apenas para recuperar parcialmente os baixos índices de março e abril, porém sem a força necessária para uma recuperação mais efetiva. Com isso, observa-se que também no estado catarinense começou a se desenhar um retorno próximo ao patamar de 2019, caracterizado por baixas variações que configuravam um cenário próximo à estagnação.

Gráfico 1: Produção Física Industrial em Santa Catarina, variação (%) no mês (com ajuste sazonal) – 24 meses

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Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.

Como é mostrado pelo Quadro 1, a variação mensal de outubro, em comparação com o mês imediatamente anterior, foi de 2,8%. Mantendo uma correlação muito próxima aos resultados do agregado nacional, a expansão da produção industrial de SC no mês de outubro apresentou a menor magnitude desde que se iniciou a recuperação das quedas de março e abril. Como consequência, o resultado acumulado do ano continuou apresentando uma retração da ordem de -7,8%. Em grande medida, esse montante está sendo agravado pela perda de ritmo das taxas mensais de recuperação, mesmo que o parâmetro de comparação seja o baixo resultado apresentado no ano de 2019. Isso significa que ainda há um longo caminho para que a produção industrial de Santa Catarina supere os impactos da pandemia e apresente um cenário de crescimento mais estável e sustentável.

Em comparação ao mesmo mês do ano anterior, a expansão em outubro voltou a ser de 7,6%, repetindo o auferido em setembro. Mais uma vez é importante destacar que esses dados positivos dizem mais sobre a debilidade da indústria catarinense em 2019 do que propriamente uma expansão da produção em 2020. Por isso que o acumulado dos últimos doze meses também é negativo da ordem de -6,8%.

Quadro 2: Atividade Industrial em Santa Catarina, 2020

quad2

Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.

Comparando-se o desempenho da indústria catarinense em relação às demais UFs pesquisadas (Gráfico 2), observa-se que o estado possui o sexto pior desempenho acumulado, ficando à frente apenas dos estados do Espírito Santo (-17%), Ceará (-9,8%), Rio Grande do Sul (-9%), Amazonas (-8,9%) e São Paulo (-8,2). Além disso, é preciso destacar, ainda, que o acumulado catarinense de -7,8 % continua abaixo da própria média nacional (-6,3%).

Gráfico 2: Produção Física Industrial, acumulado em 2020, por UFs

graf2

Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.

Esse resultado decorre do desempenho dos diferentes setores que compõe a planta industrial catarinense. Como se pode observar no Gráfico 3, apenas dois dos 12 setores pesquisados apresentaram taxas positivas no acumulado: máquinas, aparelhos e materiais elétricos (2,7%) e máquinas e equipamentos (2,5%).  Já os setores de produtos de borracha e material plástico e de celulose, papel e produtos de papel registraram estagnação em relação ao acumulado do mesmo período de 2019.

Os oito setores restantes continuaram apresentando retrações significativas. Os piores cenários são verificados nos setores de veículos automotores, reboques e carrocerias (-27,3%), metalurgia (-21,8%) e artigos de vestuário e acessórios (-21,5%). Nos dois primeiros casos, esse fraco desempenho poder estar associada à taxa de investimentos que se situa em patamares baixos atualmente. Já o baixo desempenho do terceiro caso, enquadrado no macro setor de bens de consumo não duráveis, pode estar associado ao dinamismo do mercado interno, o qual sofre os efeitos dos graves problemas atuais, especialmente do elevado nível de desemprego. A continuidade do desempenho desses setores novamente nesses patamares é preocupante, uma vez que poderão afetar bastante a dinâmica econômica do estado também em 2021.

Gráfico 3: Produção Física Industrial em Santa Catarina, acumulado em 2020, por setores

graf3

Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.

O Quadro 3 apresenta a variação dos setores em outubro, em relação ao mesmo mês do ano anterior. De maneira geral, é possível visualizar um cenário positivo em relação aos níveis de outubro 2019. Dos doze setores pesquisados, 10 deles apresentaram taxas de variação positivas, sendo as mais expressivas registradas nos setores de máquinas e equipamentos (35,5%) e máquinas, aparelhos e materiais elétricos (29,5%). As altas expressivas desses setores, que também tinham ocorrido nos meses anteriores, são responsáveis pela elevação das taxas acumuladas.

Quadro 3: Produção Física Industrial de Santa Catarina, variação dos meses de 2020 em relação ao mesmo mês do ano anterior (2019), por seções e atividades industriais

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Fonte: PIM-PF IBGE; Elaboração: NECAT-UFSC.

Os setores de fabricação de produtos alimentícios (-4,5%) e de fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias (-10,3%) foram os que apresentaram taxas negativas no desempenho mensal. Destaca-se, novamente, o desempenho da indústria de veículos automotores, uma vez que com a queda brusca de outubro,  registra-se que o setor somou quedas expressivas ao longo de todos os meses de 2020, exceção apenas no mês de fevereiro, quando ocorreu uma expansão bem tímida.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O cenário da indústria nacional no ano de 2020 continua muito desfavorável, fato que não pode ser creditado apenas aos impactos da Covid-19, uma vez que esse baixo desempenho já está em curso desde a crise de 2014. Após sofrer fortes impactos nos meses de março e abril de 2020, em função das medidas adotadas para conter a expansão da doença no país, o processo de recuperação tem sido lento, sendo que nos dois últimos meses se observou um arrefecimento que pode estar indicando uma perda de dinamismo da atividade industrial. De alguma forma, os resultados negativos do acumulado do ano, sobretudo no setor de bens de capital (-15,4%) e no setor de bens de consumo duráveis (-24,6%), revelam a dimensão da crise econômica atual que perpasse, inclusive, a esfera específica do setor industrial.

No caso particular de Santa Catarina, notou-se que esse mesmo cenário nacional está em curso na atividade industrial catarinense, uma vez que seu desempenho nos dois últimos meses parece ter retornado ao patamar com baixas taxas de crescimento, sendo que algumas delas praticamente estagnadas. Isto porque, depois de superar os impactos das quedas bruscas verificadas nos meses de março e abril, desenha-se para os próximos meses o retorno para variações produtivas bastante modestas, especialmente em alguns setores essenciais do parque industrial estadual.

Neste caso, acendeu-se o sinal de alerta para os setores de veículos automotores, metalurgia e artigos de vestuário e acessórios, os quais continuam apresentando taxas acumuladas de retração muito expressivas. Em um sentido contrário, despontam com saldos positivos acumulados os setores de máquinas, aparelhos e materiais elétricos e máquinas e equipamentos, em função das variações positivas registradas, sobretudo no último mês.

Desta forma, nota-se que a sustentabilidade do crescimento dos setores com bom desempenho e a recuperação dos setores que hoje ainda apresentam baixas taxas de crescimento dependerá da capacidade dos agentes governamentais em estabelecerem políticas que garantam a efetividade da retomada econômica. Sem esse arcabouço de políticas, articuladas regional e nacionalmente, que tenha como objetivo a retomada dos níveis de produção, renda e emprego, de forma paralela à imunização da população, não haverá possibilidade de recuperação automática do conjunto da indústria catarinense.

[1] Estudante de Economia na UFSC e Bolsista do NECAT. E-mail: matheusrosa.contato@outlook.com

[2] Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Administração, ambos da UFSC. Coordenador Geral do NECAT-UFSC e Pesquisador do OPPA/CPDA/UFRRJ. Email: l.mattei@ufsc.br

Covid-19 e os preços dos alimentos em Santa Catarina

16/12/2020 15:20

Por: Lilian de Pellegrini Elias[1]

O aumento do preço dos alimentos em Santa Catarina ganhou os noticiários nos últimos meses em função de alguns dos itens mais consumidos pela população terem atingido altas históricas de preço. Este é o caso do arroz, um dos itens mais consumidos no domicílio, que se destacou ao apresentar aumento de 84% no preço nominal no atacado entre fevereiro e novembro de 2020 como pode ser visto no Gráfico 1. A variação de fevereiro a novembro havia atingido 88%. Os preços no atacado são considerados aqui um bom sinalizador para o que ocorre nas gôndolas do supermercado, visto que variações de preços são usualmente repassadas ao consumidor.

Gráfico 1: Preços* Médios do Arroz beneficiado tipo 1 – parbolizado – 30 kg no atacado de Santa Catarina de janeiro de 2014 a novembro de 2020

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Fonte: Cepa/Epagri (2020); *Preços nominais.

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Recuperação do emprego formal acelera em outubro com retomada dos serviços e do comércio

12/12/2020 18:32

Por: Maria Eduarda Munaro[1]

Conforme apresentamos em artigo recentemente publicado na Revista NECAT, a crise associada à pandemia da Covid-19 impactou de forma intensa o mercado formal de trabalho em Santa Catarina e no Brasil[2]. O objetivo deste texto é atualizar a análise do processo de recuperação do emprego formal no estado à luz da dinâmica nacional, dando atenção aos resultados do Novo CAGED do mês de outubro.

De acordo com os dados contidos na Tabela 1, no mês de outubro o Brasil apresentou saldo de 394.989 vínculos formais de trabalho, enquanto Santa Catarina gerou 32.911 novos vínculos. Com isso, o Brasil acumulou a perda de 171.139 vínculos desde o início do ano, o que representa uma queda de 0,4% no total de empregos formais ativos. Em geral, o mercado formal de trabalho catarinense permanece seguindo as tendências nacionais, no entanto o ritmo de sua recuperação tem sido mais intenso do que a média do país. Com o resultado de outubro, o estado retomou o patamar atingido ao final de 2019, acumulando uma variação de 1,7% no estoque de vínculos formais de trabalho desde o início de 2020.
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Produção Industrial de Santa Catarina em setembro continuou tímida e acumulado permanece negativo

21/11/2020 14:37

Por: Matheus Rosa [1] e Lauro Mattei [2]

Os dados divulgados recentemente pela Pesquisa Industrial Mensal do IBGE (PIM-PF) revelam que ainda há um longo caminho para a reversão dos impactos negativos causados pela crise da pandemia da COVID-19 no desempenho industrial de Santa Catarina.

No âmbito do país a produção física se expandiu 2,6% em setembro, reafirmando uma queda do ritmo de recuperação em relação aos meses imediatamente anteriores (3,6% em agosto, 8,6% em Julho e 9,6% em Junho). Nas diversas unidades da federação pesquisadas, em apenas sete delas foi verificado um desempenho acima da média nacional, bem como um desempenho inferior ao país nos outros sete estados. Dentre aquelas unidades federativas que mais expandiram a produção física destacam-se o Paraná (7,7%), Amazonas (5,8%) e Espírito Santo (5%). Já dentre aquelas com piores desempenhos encontra-se o Mato Grosso (-3,7%), Rio de Janeiro (-3,1%) e Pará (-2,8%).
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No mês de setembro de 2020 o setor de serviços atingiu o patamar pré-pandemia no estado de Santa Catarina

19/11/2020 16:11

Por: Mateus Victor Fronza *Lilian de Pellegrini Elias ** e Lauro Mattei ***

A pandemia da COVID-19 provocou um efeito abrupto e profundo no setor de serviços da economia catarinense entre os meses de março e abril, como mostra a série histórica apresentada pelo Gráfico 1. A partir de maio o setor vem apresentando uma recuperação lenta, porém, consistente, de tal forma que em setembro retornou ao patamar semelhante ao período anterior ao início da pandemia. No entanto, como já discutido nos textos anteriores, o setor já não apresentava grande dinamismo no ano anterior e no início de 2020, período pré-pandemia. O indicador de volume de serviços do início de 2020 apresentava o mesmo patamar do início de 2011, quando essa série passou a ser disponibilizada pelo IBGE. Todavia, o resultado de setembro de 2020 ainda está longe do patamar obtido em 2014, quando se verificou o auge da série. (IBGE, 2020).

Gráfico 1: Volume de serviços em Santa Catarina (índice base fixa com ajuste sazonal, 2014=100)

Fonte: PMS 2020 (IBGE); Elaboração: Necat/UFSC

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Recuperação do setor de serviços em Santa Catarina nos primeiros oito meses de 2020 foi incapaz de reverter as perdas sofridas na pandemia

28/10/2020 10:00

Por: Mateus Victor Fronza *Lilian de Pellegrini Elias ** e Lauro Mattei ***

A série histórica do setor de serviços se inicia em 2018 com o objetivo de mostrar a forte oscilação provocada pela greve dos caminhoneiros que ocorreu no primeiro semestre de 2018. Tal episódio, apesar de ter tido uma curta duração, provocou efeitos expressivos sobre o Produto Interno Bruto (PIB) daquele ano. Já a pandemia da COVID-19 provocou efeitos abruptos e profundos entre os meses de março e maio, conforme pode ser observado por meio do Gráfico 1. Tal figura também revela que o processo de recuperação das perdas é bastante lento, sendo que no mês de agosto o índice ainda se encontrava cinco pontos abaixo do valor observado no mês de janeiro de 2020.

Gráfico 1: Volume de serviços (índice base fixa com ajuste sazonal, 2018=100)

 Fonte: PMS (2020); Elaboração: Necat/UFSC

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A queda dos rendimentos do trabalho em Santa Catarina durante a pandemia da Covid-19

20/10/2020 19:09

Por: Vicente Loeblein Heinen [1] e Lauro Mattei [2]

A perda de rendimentos do trabalho é um dos aspectos mais críticos da crise associada à pandemia do novo coronavírus no Brasil. Com a queda abrupta do número de horas trabalhadas e o fechamento massivo de postos de trabalho em diversos setores, houve um aumento rápido da população sem renda do trabalho, ao mesmo tempo em que os trabalhadores que conseguiram se manter ocupados tiveram seus rendimentos efetivos reduzidos. No conjunto do país, esses movimentos provocaram uma queda da massa salarial da ordem de 20%, com resultados negativos em todas as unidades da federação.

Embora essa queda tenha sido parcialmente compensada por rendimentos de outras fontes (com destaque para o Auxílio Emergencial), ela acabou agravando ainda mais a situação do mercado de trabalho de Santa Catarina, onde os rendimentos do trabalho representam aproximadamente 75% da renda total das famílias[3], uma vez que esses rendimentos já se encontravam praticamente estagnados desde 2014[4].
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Caiu o ritmo de recuperação da Indústria Catarinense no mês de agosto e acumulado do ano ainda é negativo

19/10/2020 18:35

Por: Matheus Rosa [1] Lauro Mattei [2]

Breves notas sobre a produção industrial no país

O crescimento da produção industrial do país no mês de agosto (3,2%) caiu em relação ao mês de julho, quando essa taxa de crescimento foi de 8,3%. Essa desaceleração atingiu onze das 15 unidades da federação pesquisadas, sendo que apenas sete delas cresceram acima da média nacional. Chama atenção que três unidades da federação apresentaram resultados negativos em relação mês anterior: PE (-3,9%); ES (-2,7%) e MG (-0,4%).

Quando se analisa a produção de agosto de 2020 em relação ao mesmo mês do ano anterior, verifica-se que o agregado do país permaneceu negativo da ordem de 2,7%. Apenas cinco unidades da federação apresentaram resultados positivos: PE (+10%); CE (+5,3%); RJ (+4%); GO (+3,1%) e AM (+0,7%). Já Santa Catarina apresenta um desempenho negativo da ordem de 1,3%.

Do ponto de vista do acumulado do ano (jan-ago/20) em relação a igual período do ano anterior, apenas três das quinze unidades da federação pesquisadas apresentaram resultados positivos: Rio de Janeiro (2,4%), GO (1,8%) e PE (0,9%). Todas as demais unidades da federação apresentaram resultados negativos expressivos, com destaque para os casos de ES (-18,9%), CE (-14,8%), AM(-13,7%), RS (-12,4%), SC (-11,9%) e São Paulo (-11,1%), todas com taxas acima de dez pontos percentuais. Já o percentual do país ficou próximo a 9%.

Essas informações são bastante reveladoras do quadro dramático presente na indústria brasileira, o qual foi apenas agravado pela pandemia, uma vez que desde o início da crise econômica em 2015 a produção física da indústria do país vinha dando demonstrações de crises sistêmicas.
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Fuga de capitais e outros explosivos

16/10/2020 10:24

Por: José Álvaro de Lima Cardoso [1]

Desde 2019 o Brasil enfrenta a chamada “fuga de capitais”. Nos primeiros oito meses deste ano US$ 15,2 bilhões deixaram o país, o maior volume para o período desde que o Banco Central começou a realizar essas estatísticas, em 1982. Ao mesmo tempo investidores estrangeiros retiraram R$ 88,2 bilhões da Bolsa brasileira de janeiro a 29 de setembro, o dobro do registrado em todo o ano passado. No Brasil não há controle de entrada e saída de capitais externos (quarentena ou um tipo de pedágio para o capital que entra no país). O que é típico de país atrasado. Aqui na América Latina o Chile tem, na Ásia, a Malásia dispõe. Seria fundamental realizar esse tipo de controle, para preservar as economias da voracidade dos capitais especulativos, já que, no fundamental, esse tipo de capital não passa de um mecanismo de dominação e controle dos capitais sobre economias subdesenvolvidas.
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Razões para Florianópolis apresentar a cesta básica mais cara dentre todas as capitais do país

14/10/2020 17:53

Por: Lauro Mattei[1]

No dia 06/10/20 o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) divulgou os novos valores da Cesta Básica pesquisada em 17 capitais do país[2]. A pesquisa revelou que, além dessa cesta apresentar variações percentuais expressivos dos preços em todas as capitais consideradas, Florianópolis apresentou o maior valor absoluto, além de ser a capital com as maiores variações percentuais de preços dos alimentos que metodologicamente compõem tal cesta alimentar (9,80%). Por isso, é importante discutir possíveis razões que podem explicar tal comportamento, especialmente durante esse cenário de pandemia em que a capital catarinense é uma das cidades mais afetadas pelo desemprego no estado. Antes, porém, vamos apresentar algumas informações básicas sobre essa pesquisa.

O que é e o que representa a pesquisa da Cesta Básica do DIEESE

É importante registrar que o artigo segundo do Decreto Lei número 399, de 30/04/1938, regulamentando a Lei número 185, de 14/01/1936, estabeleceu que o Salário Mínimo (SM) deveria ser a remuneração que fosse capaz de satisfazer as necessidades da família de um trabalhador adulto[3] em cada região do país com gastos em alimentação, habitação, higiene e transporte. Foi nessa época também que se criou a chamada “Cesta Básica de Alimentos” composta por quantidades balanceadas de proteínas, calorias, ferro, cálcio e potássio.
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Quem foram os trabalhadores mais atingidos pela crise associada à pandemia da Covid-19 em Santa Catarina?

09/10/2020 12:38

Por: Vicente Loeblein Heinen[1] e Lauro Mattei[2]

 Conforme analisamos em texto publicado recentemente no Blog do Necat, o mercado de trabalho de Santa Catarina foi fortemente atingido no período mais agudo da crise associada à pandemia da Covid-19. Somente no 2º trimestre de 2020, considerando-se a série com ajuste sazonal, o estado perdeu 110 mil ocupações, ou então 137 mil na série sem ajustes.

Neste texto, serão caracterizados esses postos de trabalho perdidos, com o intuito de destacar os segmentos sociais mais atingidos na atual conjuntura. Para tanto, utilizaremos as séries sem ajustes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), analisando a variação da população ocupada no 2º trimestre de 2020, considerando-se os seguintes indicadores: setor de atividade econômica; posição na ocupação e categoria do emprego; sexo; e cor/raça dos trabalhadores.
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Resultado acumulado da indústria catarinense nos sete primeiros meses de 2020 continua negativo

30/09/2020 20:56

Por: Lauro Mattei[1], Lilian de Pellegrini Elias[2] e Matheus Rosa[3]

A trajetória da indústria de Santa Catarina no ano de 2020, em linhas gerais, tem acompanhado as variações observadas em nível nacional*. Como ilustra o Quadro 1, nos dois primeiros meses foram registradas pequenas variações positivas, sendo 1,1% em janeiro e 1,7% em fevereiro. O comportamento da indústria catarinense, portanto, assim como no país, não apresentava nenhum sinal de retomada para um nível maior de crescimento no período imediatamente anterior à eclosão da pandemia da Covid-19.

Quadro 1: Produção Física Industrial em SC, 2020 – Variação (%)

Q1

Fonte: PIM-PF/IBGE; Elaboração: Necat/UFSC.
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Santa Catarina perdeu 163 mil postos de trabalho no 1º semestre de 2020

16/09/2020 11:56

Por: Vicente Loeblein Heinen[1] e Lauro Mattei[2]

Em texto anterior mostramos que a crise associada à pandemia provocada pelo novo coronavírus afetou intensamente os principais indicadores do mercado de trabalho catarinense já no 1º trimestre de 2020, quando houve a perda de 62 mil postos de trabalho. Recentemente, o IBGE divulgou os resultados regionais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC) relativos ao 2º trimestre de 2020, o que permite contextualizar o cenário estadual no período mais agudo da pandemia no país, contemplando todo o primeiro semestre de 2020.

No conjunto do país a taxa de desocupação atingiu 13,3% no trimestre compreendido entre abril e junho, registrando variação interanual de 1,5 ponto percentual (p.p.). Em Santa Catarina, essa taxa ficou em 6,9%, de modo que o estado se manteve com o menor índice de desemprego dentre todas as unidades da federação. Apesar disso, os impactos da pandemia no mercado de trabalho catarinenses não foram menos graves. No 2º trimestre de 2020, a taxa de desocupação estadual subiu 1,1 p.p. com relação ao trimestre anterior, e 1,2 p.p. com relação ao mesmo trimestre de 2019 (Gráfico 1).
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Panorama do orçamento dos domicílios catarinenses a partir da POF 2017/2018

13/09/2020 17:12

Por: Mateus Victor Fronza * Vicente Loeblein Heinen **

A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) é realizada pelo IBGE em intervalos de seis ou sete anos e tem por objetivo avaliar “as estruturas de consumo, de gastos, de rendimentos e parte da variação patrimonial das famílias, oferecendo um perfil das condições de vida da população a partir da análise dos orçamentos domésticos”[1].

A POF é realizada desde o biênio 1987-1988, com edições em 1995-1996, 2002-2003 e 2008-2009. Recentemente, foram divulgados os primeiros resultados de sua nova edição, referentes ao período 2017-2018, os quais revelam mudanças importantes nas condições de vida das famílias brasileiras e catarinenses.

Assim, este texto tem por objetivo atualizar a situação dos orçamentos domiciliares de Santa Catarina, tendo em vista sua evolução em comparação com a pesquisa anterior (2008-2009). Para tanto, ele está estruturado em duas seções: uma referente às despesas e a outra referente aos rendimentos dos domicílios.
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